Vitória, 27 de agosto de 2009
É um prazer compartilhar dessa mesa com Moema, parceira em outros momentos e lugares, e com Maria Lívia, coordenadora de projetos da instigante ONG Humbiumbi.
Tentarei abordar os três aspectos que me foram solicitados, a trajetória profissional, os conceitos e visão dos autores que embasaram essa trajetória, e minha visão sobre como a Arte pode desenvolver potenciais dentro do que acredito e defendo.
Minha trajetória profissional é sinuosa e bifurcada. Tentarei ser concisa.
Iniciarei pela produção artística, para então falar das possibilidades do desenho de observação, passar pelo trabalho de formação continuada com professores no Museu de Arte do ES, fazer referência a uma experiência em desenvolvimento com deficientes visuais no setor Braille da Biblioteca Pública Estadual e terminar com propostas de intervenção de adolescentes infratores internos do IASES.
Iniciei produzindo gravuras em metal adotando técnicas tradicionais que subverti com experimentações que propiciassem maior liberdade gestual e que me levaram à adoção do desenho e à busca no teatro como um apoio de soltura corporal.
Sempre trabalhando com a figura humana, o referencial para a produção das imagens também foi ganhando liberdade.
Das fotos alheias inicialmente utilizadas como referência, migrei para as de minha autoria, depois para filmes do circuito, estancando cenas a partir de uma busca em câmera lenta das situações mais significativas. Posteriormente adotei registros em vídeo de situações em que estava envolvida, como festivais de arte e encontros em bares e festas com os colegas e professores do mestrado em estudos literários. Passei assim a realizar um diário visual, onde também registrava pensamentos/sensações em textos.
Nessa busca pela técnica, pela expressão e pela temática, o corpo, o olhar e as mãos repetiram, na diferença, forças com as quais entrei em contato, configurando-me em movimento. A vazão ao gesto e à grafia inscreveu além de gravuras e desenhos, signos construídos com imagens externas e internas que me possibilitaram visualizar afetos, produzir significados e aprofundar um relacionamento reflexivo com o mundo e comigo mesma.

O desenho de observação
Minha experiência como desenhista e como professora das disciplinas Desenho Artístico I e II no curso Design de Moda da Faculdade Novo Milênio, voltadas a habilitar os alunos a desenharem de observação o corpo humano adulto, fizeram-me pensar sobrepotencialidades dessa atividade para a construção de identidade e de reflexão sobre o mundo.
A ação de transcrever o visto devolve aos nossos sentidos a capacidade que possuem para compreender as coisas, desprezada pela cultura Ocidental.[1]
O desenho de observação envolve tanto a razão como a sensação/intuição. Ao analisamos a estrutura, as proporções do objeto e/ou da cena a nossa frente, e elaboramos um primeiro croqui estruturante, um mapa/estudo do visto, fazemos, sobretudo, uso da razão. Mas na etapa de entrega à transcrição das formas observadas para o papel, que somente percebemos de relance para “respeitarmos”, ainda que muitas vezes transgredindo, o croqui, nesse momento age prioritariamente a sensação/intuição. Nessa atividade somos como que a coisa observada, ela nos atravessa.
Esse duplo envolvimento, da razão e da sensação/intuição, muitas vezes ocorrendo em simultâneo, contribui para desfazer o divórcio na cultura Ocidental entre o conceito e a coisa percebida, restabelecendo a visão integrada de que nos fala Rudolf Arheim em seu livro Arte e Percepção Visual – Uma Psicologia da Visão Criadora.
Além disso o rastro de nossos gestos no papel traz também consigo sensações internas. Afloradas, liberadas, elas passam a nos pertencer na consciência, ainda que não revertidas em palavras.
Desenhar de observação enriquece o repertório imagético que temos. Propicia também conhecermos as sutilezas, as diferenças, encantarmo-nos com as sinuosidades, desprendermos de padrões estéticos impostos. O percurso minucioso do olhar sobre as formas remete ao tato, cria uma empatia com o visto. Por outro lado, a tomada de consciência da parcialidade do ponto de vista pode ser explorada para nos conscientizarmos a respeito das restrições de nossa percepção e concepção de mundo, tornando-nos mais tolerantes. Costumava brincar com meus alunos que se todos humanos desenhassem de observação e tomassem, a partir dessa atividade, ciência da parcialidade de nossos sensores voltados para o mundo, e das verdades que construímos sobre ele, os deuses alheios não seriam desrespeitados e não haveria tantas guerras.
Estou abordando a linguagem do desenho de observação como possibilidade tanto de desenvolver a visão integrada, como de gerar conhecimento daquilo que se desenha e de áreas de interesse e sensações internas de quem se envolve nessa atividade. Mas para que isso ocorra é preciso identidade com essa forma de expressão, bem como um grau de liberdade para escolher temáticas envolventes.
Passo agora a abordar as ações educativas desenvolvidas pelo MAES, em parceria com outras instituições, voltadas para a formação continuada de professores de Artes no período em que respondia pelo setor de ação educativa, de 2004 a 2007.

Em junho e julho desdobramos a atividade com o Projeto “O museu pega a estrada com o arte br” e percorremos os municípios de Afonso Cláudio, Barra de São Francisco, Cachoeiro do Itapemirim, Colatina, Guaçuí, Linhares, Nova Venécia e São Matheus, realizando a oficina e distribuindo kits para 200 professores de todos os municípios não pertencentes à Grande Vitória. Na ocasião divulgávamos o MAES e incentivávamos a visitação ao museu para que as obras em exposição inclusas no kit arte br fossem vistas. Várias escolas do interior atenderam ao convite.
Essa experiência bem sucedida veio de encontro à direção que a Secretaria de Cultura desejava imprimir ao MAES: ser um museu voltado para o Estado e não apenas circunscrito à Grande Vitória. Por outro lado nos fez perceber que se não tínhamos recurso para produzir material didático não nos faltava competência para distribuí-los.
Esta ação voltada para a expansão das fronteiras do MAES, contou com dez reproduções fotográficas no tamanho original de gravuras (oito serigrafias e duas xilogravuras) de Dionísio Del Santo, artista capixaba cuja retrospectiva inaugurou o MAES em dezembro de 1998.
Em cada um dos onze municípios percorridos foi realizada a palestra “História da Gravura”, de quatro horas de duração e fartamente ilustrada, bem como ofertada a “Oficina Prática de Técnicas de Gravura”, com carga horária de dezesseis horas, realizadas e ministradas pelos professores Fernando Gómez, Maria das Graças Rangel e Júlio Tigre.

Em 2006 continuamos a parceria com a SEDU, porém em outro formato. A cada exposição do MAES realizávamos oficinas em Vitória, relacionadas à técnica e temática abrangidas contemplando conteúdos de artes e de outra área de conhecimento. Dessa forma buscávamos através da interdisciplinaridade conscientizar professores de outras disciplinas acerca da especificidade das artes visuais. Participavam das oficinas três profissionais de cada SRE: um professor de arte, outro de disciplina relacionada com o conteúdo da exposição e um técnico da Superintendência. Posteriormente eles reproduziam a oficina para professores dos municípios de suas Superintendências acompanhados por Mirtes Moreira, então responsável pelo núcleo de Currículo de Artes Plásticas da SEDU.
Para a exposição “Universo do Cordel” foram ofertadas as oficinas de “Produção de texto”, com Paulo Roberto Sodré, professor Doutor do curso de Letras da UFES, de duração de oito horas e a de “Ilustração com técnicas de gravura” com Fernando Gómez Alvarez, Professor Mestre do curso de Artes Visuais da UFES, também com oito horas de duração.


Na manhã seguinte o professor da UFES Attílio Colnago Filho ministrou a palestra ilustrada “A evolução histórica da apresentação da figura humana nas artes plásticas”, com quatro horas de duração. No turno da tarde a Professora mestre Patrizia Lovatti conduziu a “Oficina de matemática vinculada à arte, baseada na exposição Camille Claudel”, quando trabalhou questões como o cálculo do ponto de ouro, proporções do rosto e do corpo humano e cálculo de sua regularidade a partir de fotos dos alunos da oficina e das esculturas de Camille Claudel, dentre outras.
Participaram dessa atividade onze professores de artes, onze de matemática e os onze responsáveis pelas Superintendências Regionais de Ensino do ES de diversos municípios do ES.

Essa metodologia está sendo testada atualmente na Biblioteca Pública do ES em interlocução com cegos, com pessoas com déficit de visão e com Maria Joana de Souza, Bibliotecária responsável pelo Setor Braille.

Fragilidade faz parte da vida, não é a toa que os “seres de sensação”, como nomeia Deleuze e Gattari os objetos de arte, enfrentam o caos, criam um finito que restitui o infinito. A relação com os “habitantes” do setor Braille fez-me devir-outra.
Para responder a essa questão cito uma palestra gravada pelo Itaú Cultural sobre arte contemporânea realizada por Celso Favaretto, filósofo e professor da Faculdade de Educação da USP.
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só
muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa a roupa (o fato) que os
homens o fizeram usar.
Procuro despir do que aprendi,
Procuro esquecer do
modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os
sentidos
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e
ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.


[2] Secretária de Estado de Cultura do ES no período: Neusa Mendes; Diretores do MAES no período: Fabrício Coradello, Inah Durão e Rafaela Zanete.
3] COMO SER MAES, iniciado em setembro de 2004, trouxe ao estado nomes Moacir dos Anjo, Diretor do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM, Recife), Nilton Campos, Arquiteto e Urbanista, artista plástico, diretor de arte teatral, Coordenador de Artes Visuais, Coordenador do MARP - Museu de Arte de Ribeirão Preto, Fernando Cocchiarale Crítico de arte; professor de Estética do Departamento de Filosofia e do Curso de Especialização em História da Arte e Arquitetura do Brasil, PUC-Rio; e professor da EAV / Parque Lage, RJ. Em 2000, assumiu a curadoria do MAM- RJ, Guilherme Vergara Professor do Departamento de Arte da UFF e diretor da Divisão de Arte Educação do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, Marília Panitz Coordenadora das ações educativas do Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, Milene Chiovatto Coordenadora da Área de Ação Educativa da Pinacoteca do Estado de São Paulo e artista plástica, Stela Barbieri Artista plástica, Diretora da Ação Educativa do Instituto Tomie Ohtake, dentre outros, para discutir temas "Como curar museus", "Acervo: Por que, De que, Para que, Para quem?", "O Público do Museu Público", etc.
[4] Autor: INSTITUTO ARTE NA ESCOLA Título: KIT ARTE BR : REDE ARTE NA ESCOLA
Notas: BBE. Realização, Arte na Escola, Instituto Arte na Escola. Créditos: texto, Eliana Braga Aloia Atihé ; produção, Trust Design & Multimídia ; coordenação geral, Instituto Arte na Escola ; patrocínio, Petrobrás. Conteúdo: Kit Arte Br (4 minutos, 43 segundos) -- Rede Arte na Escola ( 2 minutos, 42 segundos). VHS.http://www.inep.gov.br/pesquisa/bbe-online/det.asp?cod=2143&type=OM



Notas